A gente vive como quem não morre. No fundo, apesar da obviedade da finitude e dos sinais do tempo, a gente segue gastando os dias na certeza de haverá um amanhã. "Meu bolo favorito", filme iraniano de Maryam Moghaddam e Behtash Sanaeeha, nos obriga a parar e pensar. Tem ali um pouco de tudo que importa na denúncia do absurdo da repressão moral iraniana, sobretudo à s mulheres. Não que não tenhamos os nossos absurdos. E talvez por isso, a história, embora não traia intenções polÃticas, segue para dentro do humano e universal a despeito das diferenças.
Mahin (Lili Farhadpour) é uma viúva de 70 anos que se cansa da solidão. O exagero de realidade das cenas nos faz acompanhar o cotidiano solitário que marca dia após dia sua saga. No fim das contas, não é mesmo a morte que assusta, mas morrer só. O lamento noturno da solidão e a inutilidade dos dias assustam mais. Mahin era enfermeira, vive longe dos filhos, faz colcha pro neto distante que só vê pelo celular, mas carrega a coragem de seguir em busca de se sentir viva. A falta de futuro e as dores nos joelhos não causam em Mahin um olhar saudoso do passado. Tudo foi o que se pôde viver de bom e ruim. Longe da nostalgia, Mahin tem fome de presente. Sabe que felicidade não é um estado perene, mas momentos de êxtase que valem a pena. Vai em busca de seu Faramarz (Esmaeel Mehrabi), um desconhecido que recebe de bom grado o presente desse amor que vem pronto como a mesa posta pro jantar. Naquela noite, Faramarz reacende, literalmente, a luz dos seus jardins. Bebem vinho, cantam, dançam, tiram fotos tremidas e celebram com seu bolo favorito o privilégio de estar vivo. Situações em que, despidos de todas as amarras e a despeito de todas as impossibilidades, simplesmente nos entregamos à vida. Porque ela acaba, como tudo. Mas presta porque nos permitimos amar, ainda que num ciclo de uma noite que começa e termina no mesmo jardim. Meu bolo favorito tem o gosto dessa intensidade. E nos traz a certeza de que há momentos, absolutamente humanos, que valem o viver.