Embora o conteúdo do livro seja provocador e crítico, não é uma leitura difícil, a escrita é, ao contrário, fácil de entender e fluída. Este romance é sobre racismo e cotas raciais, mas com certeza não se limita a isso, são vários pequenos "capítulos" que contam um evento ou a vida de uma pessoa ou a sequência de um relato etc. e que vão conectando todo o enredo num fluxo leve e perfeitamente coerente.
Na época em que se passa esta narrativa as cotas nas universidades estavam começando a serem adotadas como são hoje, mas outras questões são abordadas, por exemplo, existem as críticas aos brancos mas também existem as relações inter-raciais, que são criticadas até que os próprios críticos acabam se envolvendo com pessoas brancas e isso passa a ser compreensível, normalizado, também são abordadas a solidão, a amizade, as questões familiares.
Jeferson Tenório tece personagens e situações palpáveis, reais, o cotidiano e os problemas dos personagens são desenvolvidos com realismo, sua escrita é simples, mas não simples demais, é imersiva e atraente. Talvez não menos realista mas certamente incômodo é o próprio protagonista, Joaquim, que parece o mais apático, à princípio. Logo essa apatia se estende em outras características incômodas, Joaquim também é quase submisso, é resignado, até um pouco covarde, mas também acompanhamos, e assim faz possível torná-lo compreensível, suas frustrações, seus fracassos, o fato, por exemplo, de ter conseguido ingressar numa universidade através das cotas ser apenas uma etapa, apenas um pequeno sucesso, e aqui pungem as críticas de Tenório, porque, apesar dessa pequena vitória, as pessoas pobres e negras ainda precisam trabalhar, ainda sofrem financeiramente, tendo que exaustivamente conciliar ou não conseguir conciliar os estudos com o trabalho e com os problemas pessoais que são insolúveis por conta da própria classe.