O documentário é bem feito, mas não concordo com muitas ideias que ela defende.
Primeiro, não concordo com a visão de que a construção de Brasília é um marco de modernidade rompendo com o “atraso” anterior. O rompimento com o atraso se deu em 1930. A construção de Brasília foi sim
um marco, mas dentro daquele processo de desenvolvimento. O atraso voltou em 1964 e em muito aspectos não foi mais embora.
Mas isso não é o mais importante com relação a esse filme.
A ideia central é a ascensão da extrema direita, que é mostrada como consequência do aumento vertiginoso do número de evangélicos no Brasil. A consagração seria a eleição de Bolsonaro.
O filme defende que, segundo uma determinada concepção radical da igreja evangélica, o caos precede o bem estar social. Por isso, um destrambelhado (Bolsonaro) atenderia ao perfil de um ungido, um enviado de Cristo. Desta forma, muitos brasileiros aceitavam alegremente a bestialidade do inominável.
Com isso o filme, em minha opinião, comete três erros graves:
1 assume uma visão preconceituosa com relação ao povo, que é retratado como fanático e ignorante.
2 minimiza toda a conspiração política contra a esquerda que foi o que de fato resultou na eleição do Bolsonaro - a lava jato, o impeachment, reformas liberais que jogaram o povo na informalidade, perseguição à esquerda, prisão do Lula etc.
3 o argumento do filme perde a validade quando o Lula vence a eleição de 2022. Se o povo fosse tão fanático e vulnerável à influência de pessoas como Silas Malafaia (que é a estrela do filme), o Lula não teria vencido. O Bolsonaro, mesmo tendo a máquina na mão, mesmo manipulando o processo eleitoral, mesmo tentando dar o golpe, não conseguiu ganhar e foi o primeiro presidente da história que não se reelegeu.
O filme força a barra para culpar os evangélicos pelo crescimento da direita. Não concordo com isso. Não acho que seja o que determina as escolhas políticas do povo. Vivemos um processo pesado de ataque à esquerda e suas organizações. E mesmo após toda a desmobilização e a perseguição a que foi submetido, o Lula vence em 2022.
Acho que há um Brasil aí que a diretora não viu.