Um Terror Religioso que se Afoga em sua Prรณpria Premissa
"Herege" รฉ um daqueles filmes que, ร primeira vista, prometem uma experiรชncia perturbadora e instigante, mas que, no decorrer da narrativa, acabam refรฉns de sua prรณpria ambiรงรฃo. O longa apresenta um terror religioso centrado na trajetรณria de duas missionรกrias mรณrmons (Sophie Thatcher e Chloe East), que, ao tentarem espalhar sua fรฉ, acabam refรฉns do enigmรกtico Mr. Reed, interpretado por Hugh Grant. O que deveria ser uma simples interaรงรฃo doutrinรกria se transforma em um jogo de manipulaรงรฃo e sobrevivรชncia, onde crenรงas, moralidade e resistรชncia sรฃo testadas ao extremo.
A construรงรฃo atmosfรฉrica inicial รฉ eficiente: a ambientaรงรฃo claustrofรณbica da casa de Reed, o tom opressivo das interaรงรตes e a atuaรงรฃo contida de Grant criam um clima de tensรฃo genuรญna. No entanto, conforme o roteiro se desenrola, a trama parece perder-se em sua prรณpria necessidade de ser simbรณlica e profunda. O filme tenta costurar reflexรตes sobre fรฉ, doutrinaรงรฃo e poder, mas o faz de forma excessivamente didรกtica, transformando diรกlogos em longas dissertaรงรตes que mais parecem uma pregaรงรฃo disfarรงada.
O problema central de Herege reside no desequilรญbrio entre horror e discurso. Se por um lado o longa tenta se distanciar dos clichรชs do terror religioso tradicional โ evitando sustos baratos e priorizando o desconforto psicolรณgico โ, por outro, acaba recaindo em uma espรฉcie de moralismo exagerado que mina sua prรณpria autenticidade. A narrativa parece indecisa: deseja criticar a rigidez das instituiรงรตes religiosas, mas ao mesmo tempo nรฃo ousa aprofundar suas provocaรงรตes, resultando em um filme que nรฃo quer ser pretensioso, mas que, ironicamente, soa presunรงoso em seu didatismo.
Outro ponto problemรกtico รฉ o ritmo exaustivo. O filme se estende alรฉm do necessรกrio, com cenas que poderiam ter sido enxugadas sem prejuรญzo ร trama. O suspense, que no inรญcio parece bem dosado, logo se torna cansativo, pois se apoia em dilemas que nรฃo evoluem, apenas se repetem sob novas roupagens. Alรฉm disso, hรก momentos em que o terror cede lugar a uma verborragia insistente, como se o prรณprio roteiro desconfiasse da inteligรชncia do espectador e sentisse a necessidade de reafirmar sua mensagem.
Ainda assim, nรฃo se pode negar o talento do elenco. Sophie Thatcher e Chloe East entregam performances convincentes, conseguindo transmitir a dualidade entre fragilidade e resistรชncia de suas personagens. Hugh Grant, por sua vez, se diverte com seu papel, conferindo a Mr. Reed um misto de sofisticaรงรฃo e ameaรงa velada que, em momentos isolados, funciona bem.
No entanto, ao final, Herege nรฃo entrega o impacto que promete. O terror se dilui em discursos moralistas, a tensรฃo cede ร monotonia e o resultado รฉ uma obra que parece mais preocupada em passar uma mensagem do que em contar uma histรณria de maneira envolvente. O filme poderia ter sido uma crรญtica contundente sobre fรฉ e manipulaรงรฃo, mas acaba sendo apenas mais uma narrativa arrastada que se perde em sua prรณpria presepada.