Resenha Crítica: A Decepção Chamada Louisa Clark
No segundo livro da trilogia "Como Eu Era Antes de Você", acompanhamos Louisa Clark tentando, e falhando, em reconstruir sua vida após a morte de Will Traynor. Com a herança recebida, ela se muda para Londres, leva uma vida sem rumo trabalhando em um pub e, em um reflexo de seu estado interior, sofre um grave acidente. Este acidente, ironicamente, introduz os dois pilares de sua suposta nova vida: Sam, um paramédico bondoso com quem ela inicia um relacionamento cheio de reservas, e Lily, a filha adolescente que Will nunca conheceu.
Entretanto, a jornada de Lou não é a de uma heroína em superação, mas a de uma personagem que se tornou profundamente difícil de se acompanhar. A Louisa Clark que encontramos aqui é uma sombra egoísta da mulher que conhecíamos. Seu luto, embora válido, transformou-se em uma obsessão tóxica que corrói tudo ao seu redor.
O ponto mais frustrante de sua personalidade é a incapacidade de aceitar a decisão de Will. Em vez de solidarizar com a dor e a falta de autonomia que levaram um homem tetraplégico a escolher a eutanásia, Lou passa o livro inteiro culpando-o rancorosamente pela vida "despedaçada" que ela alega ter. Ela se coloca no centro de um luto que não é só seu, ignorando por completo a dor dos pais e da irmã de Will, como se fosse a única verdadeiramente afetada pela perda.
Sua postura vai além da tristeza e beira o desrespeito. Revela-se que, desde o princípio, seu "amor" por Will foi, na verdade, uma campanha obsessiva para contrariar sua vontade. Enquanto ele vivia seus últimos seis meses, Lou não estava focada em proporcionar conforto, mas em travar uma batalha pessoal para salvá-lo contra a sua própria escolha, acreditando, arrogantemente, que seu amor seria suficiente para anular seu sofrimento.
Essa obsessão transborda para seus novos relacionamentos. Ela trata Lily como um projeto, um ser para quem pode direcionar suas expectativas, e é completamente injusta com Sam. O paramédico, um homem emocionalmente disponível, é mantido à distância enquanto Lou se recusa a deixar o passado para trás, usando a memória de Will como um escudo contra a vida real. A metáfora do donut que ela usa para se descrever soa mais como uma desculpa para sua estagnação do que como uma genuína reflexão.
A conclusão é amarga: Louisa Clark, nesta sequência, deixa de ser uma personagem pela qual torcemos e se torna um exemplo de como o luto, quando não elaborado, pode se transformar em uma auto-piedade egoísta. O que era para ser uma história sobre seguir em frente acaba sendo um retrato frustrante de alguém que se recuta a viver, preferindo culpar um fantasma por sua própria incapacidade de encontrar um novo sentido.