O novo Tarantino, “Era Uma Vez Em … Hollywood” corresponde a uma revisitação do realizador aos finais dos anos 60, caracterizando a realidade da meca do cinema na época, em correspondência com a o mundo da televisão a possibilidade de os atores desse meio poderem entrar em Hollywood, nem que para isso tivessem de fazer um percurso pela Europa, servindo a Tarantino a inevitável referência aos “western spaghetty”, onde alguns atores acabaram por obter a visibilidade que os transportou para Hollywood (veja-se o caso de Clint Eastwood, aqui nunca citado), correspondendo o título do filme a uma dupla referência do mundo do cinema. Os contos de fadas, o mundo disneyano, e obviamente o grande realizador que emergiu a partir dos westerns italianos, Sergio Leone. Para não falar em relação a música, a figura incontornável de Ennio Morricone. Mas o filme põe em fundo a realidade social que se vivia nos States, o hippies e de modo muito discreto, superficial até, da contestação à intervenção americana no Vietnam. Daqui chega-se à Charles Manson, às seitas obtusas, estranhas, provocadas pelo consumo de todo o tipo de drogas, alucinogénios, ácidos, LSD, etc., liberdade sexual associada à perversão de referências esotéricas, a par com o fantástico que no cinema e na televisão irão gerar séries como “Twilight Zone” ou o cinema de terror de um Cesar Romero, em que um hippie cheio de ácidos, ganzado, acabaria por não ser muito diferente de um “zombie” ou morto-vivo… Pensaríamos que a presença da personagem da grávida Sharon Tate no contexto do enredo (interpreta por Margot Robbie) poderia levar no final do filme à noite trágica da carnificina e do assassinato da referida actriz. Tarantino não o faz. Opta antes por inventar uma outra noite, prévia àquela, em que as personagens de Leonardo DiCaprio e Brad Pitt vão fazer um ajuste de contas cartoonesco, espécie de luta contra zombies, em estilo também aparentado aos filmes de horror que começavam a fazer-se naquela época, contra os jovens ganzados da seita de Charles Manson... Em suma, um filme de memórias de uma época, a respectiva realidade do cinema e da televisão, e do modo como a sociedade de Los Angeles, da Califórnia, ou partes dessa sociedade, reagiam também à esse mundo. Genéricos em estilo da época, a condizer. Música idem.
E onde quem pertence ao mundo da televisão dificilmente chega ao mundo do cinema. Pobre personagem de DiCaprio, depois de ter destruído uma zombie com um lancha chamas é finalmente convidado para a casa dos vizinhos Roman Polanski e Sharon Tate, sem saber que uma enorme carnificina nela irá ocorrer…