Após “Som ao Redor”, “Aquarius”, “Bacurau”, Kleber Mendonça escreve e dirige “O agente secreto”, em uma co-produção internacional, que prometeu muito, mas entregou pouco.
O início do filme, que poderia ter sido menos detalhado, já fornece as informações que precisamos saber do lugar que espera o nosso herói: corpos estendidos no chão, sem ninguém dar a devida atenção, como se a morte (91 corpos no Carnaval) fosse algo corriqueiro em uma cidade marcada pela corrupção policial e pelo contexto da ditadura e a repressão intrínseca.
Marcelo ou Armando, o protagonista, é construído aos poucos, fato muito interessante, porém, logo é demarcado como um um alvo e, infelizmente, congela, ele não sai deste papel. Não luta, não reage, vira presa fácil. E chega a ser um tanto ingênuo ao buscar ajuda de autoridades policiais, que ele já deveria saber da sua corruptibilidade (já postulado no início do filme).
A impressão, infelizmente, é que é tudo “jogado” no filme, desde os assassinos de aluguel incompetentes, a trama mal desenvolvida sobre Ghirotti, refugiados que servem apenas de acessório, um grupo revolucionário opositor que pouco se mobiliza, a busca pela identidade da mãe que parece mais um MacGuffin, a morte da esposa que parece uma trama clássica da Disney que “mata” as mães sem muita explicação, as estudantes geração Z da universidade, que estudam o caso (uma branca totalmente alienada e outra que tenta resgatar sua história com muita dificuldade) e a perna encontrada dentro de um Tubarão (esta ficando apenas como uma brincadeira rasa de metalinguagem e homage ao cinema). Cenas e personagens “legais”, mas que parecem fragmentos em uma colagem que não funcionou.
O eixo principal que move o filme que seria sobre a conspiração de um empresário ligado à estatal Eletrobrás permanece na superfície, no caricato, no ódio dele aos cabeludos, comunistas, pesquisadores, mulheres e pregando a xenofobia regionalista. Coisa que já prevemos de uma figura assim, mas que ficou só por isso mesmo. Qual a real motivação de Guirotti por trás? Apenas “interesses escusos de benefício próprio e o ódio pessoal por Armando ter batido no seu filho inútil?”. Não parece ser apenas isso, mas nunca saberemos, e caso o seja, é decepcionante.
Assim como Tarantino, ele se prende a momentos, situações e diálogos não importantes para a história em si, apenas para construir personagens carismáticos e pela riqueza da mise-en-scene e ambientação da época, que realmente foi captada de forma sensacional com uma textura de película deliciosa e a arte primorosa. Mas fica só nisso mesmo. Apesar de o filme ser longo, da metade para a frente pareceu apressado com “cenas jogadas” e editadas, personagens que servem para dar algum suporte ao frágil protagonista, em conjunto, na esperança de trazer o sentido à narrativa.
O final que até que foi climático durante a perseguição, logo caiu no anti-clímax ao fazer a elipse da morte de Armando, somente vista através de uma fotografia de jornal.
Contudo, a mensagem condensada que o diretor quis passar é clara, o poder militar e estatal vence, as mortes continuam sendo apenas um número no jornal, a polícia corrupta, tudo parece apenas um folhetim; e sobretudo, a memória da ditadura se esvai, as novas gerações perdem sua identidade histórica e a arquitetura é também responsável pelo seu apagamento.