Lembro-me da primeira vez que assisti Malèna... Talvez eu não tenha a precisão necessária para me lembrar do dia, mas nunca esqueci daquele filme em tom natural de sépia da Sicilia sendo reproduzido no Supercine no verão de 2003 ou 2004.
Malèna, o filme, começa despretensioso sem despertar muito a atenção dos desavisados sobre o que, na minha opinião, é um dos mais belos filmes de todos os tempos.
Eu tinha, mais ou menos a idade de Renato, personagem interpretado por Giuseppe Sulfaro, quando naquela noite de sábado me senti preso a uma paixão platônica tal e qual a dele por Malèna. Monica Bellucci, brilhantemente, trouxe para o drama de Tornatore, a melancolia e a condição da mulher italiana na época da Segunda Guerra Mundial bem como Giuseppe Sulfaro agregou inocência ao seu personagem, por nutrir um sentimento tão intenso e profundo mas que ao mesmo tempo o limitava a espiar pelas frestas daquela casa (que falarei em breve) e a seguir a linda Malèna pelas ruas de Castelcuto.
É absolutamente incrível o poder do amor, e amparado pela trilha sonora impecável de Ennio Morricone, torna o drama ainda mais instigante e envolvente.
A ingenuidade de Renato é tão pura que não há maneira melhor para classificá-la como sendo “a angústia de amar e não ser amado”, não pelo fato de Malèna não o amar, mas sim porque ele apenas fantasiava que um dia eles ficariam juntos, e que tudo o que pudesse acontecer até que esse dia chegasse, jamais mudaria o sentimento dele por ela.
As cartas, o disco, a calcinha roubada... tudo na vida de Renato era em função dela.
A casa de Malèna, sinto muito informar aos que até aqui vieram, não existe mais. As imagens foram gravadas em uma praia no Marrocos, em El Jadida, mais precisamente, na Annasr Avenue. A estrada de terra, as casas antigas e os barcos de madeira deram lugar ao asfalto, aos postes de concreto e aos prédios altos e modernos que enterraram junto com suas fundações o passado ainda presente em Malèna. Apenas a mureta de pedra na orla, onde Renato se sentava na esperança de avistar sua amada, ainda está lá. A praça onde Malèna caminha olhando fixamente para os espaços onde firmará seus pés a cada passo, fica no centro histórico de Siracusa, na Italia, e se chama Piazza Duomo, esta sim, permanece lá, irretocável e igualmente magnífica como os olhos, os lábios, os cabelos e as curvas daquela que seria a mais linda e enigmática mulher da Sicilia.
Enfim, eu poderia passar dias escrevendo sobre essa pérola da sétima arte. O filme é tão bem feito, que, em cada segundo de cena no qual Monica Bellucci aparece, é como se fosse um poema de Pablo Neruda sobre a beleza da mulher siciliana, seus dilemas, seus anseios e sua sensualidade. Seu andar solitário pelas ruas da cidade nos remete àquele tempo de guerra, em que o caos, a tristeza e a dor poderiam se tornar suportáveis se, por acaso, pudéssemos voltar no tempo e tivéssemos a oportunidade de dividir o mesmo tempo e espaço preenchidos por Malèna.