O filme é tão bom e melhor do que como comentou o Pedro Júnior. Me senti um pouco representado pelo filme, acredito que todos nós nos sentimos. Lembra as obras de Kafka, Somos tirados do conforto e colocados numa posição onde confrontamos a realidade mais desfavorável e verdadeira da vida humana, quando não há mediação de religião, beleza ou status social, somos como merick o protagonista do filme, nada mais do que animais de circo. Nisso o filme é extremamente preciso em retratar. E é tão realista as cenas e a construção psicológica é tão impecável que cumpre completamente o papel da arte segundo Aristóteles: a Mimesis (imitação) positiva da realidade, a cartase da tragédia é completamente revelada do começo ao fim da história. Pode se dizer que o material da obra (livro, roteiro) filtrou o esqueleto narrativo das melhores tragicomédias, e quando falo comédia, uso no sentido semântico medieval, o qual significava o final feliz, e tragicomédia traduz o final trágico mais que ao mesmo tempo carrega em si a cartase positiva do trascendente, no ato final de Merick de encerrar a própria vida e o encerrar-se da própria aqui tem o peso do se render a natureza das coisas e a liberdade encontrada no infinito finito de se reconhecer como homem por toda àquela plateia, e no momento de deitar-se no quarto, como tentativa de pela primeiros vez na vida realizar seu maior sonho: dormir como uma pessoa "normal", sem o desconforto, sem o cansaço de seu fardo — falo aqui de fardo no sentido teologico-filologico cristão e, ainda, relembrando o próprio Merick orando os salmos 23 — como ato dele dormir se arriscando a morrer para ter paz tem referência ao ser-para-morte, ou como o cristianismo o coloca em apocalipse 2:10 "sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida". A câmara se eleva, a luz branca invade, a figura da mãe de Merick até então nunca revelada inteiramente durante todo o filme aparece na fotografia de forma até translúcida — tal como um batismo invertido. Todos esses atos em sequência simbolizam a essência de Merick, o Merick é assim, um personagem que encarna o cordeiro, o arquétipo do herói cristão. Batem-no, o espancam, mas ele encara em silêncio e aceita seu fim não como desventura, mas como virtude de ser e se aceitar como ser percebido e ser amado. A vitória do homem sobre sua própria aparência.