A série Adolescência da Netflix se propõe a explorar as dores, descobertas e conflitos tÃpicos do amadurecimento juvenil. Dentro desse retrato, a narrativa traz um personagem que expressa claramente comportamentos e pensamentos associados ao universo incel, que se sentem involuntariamente celibatários e nutrem ressentimento em relação à s mulheres e à própria condição social.
A construção desse personagem é relevante, mas carrega uma carga incômoda por duas razões principais: a superficialidade com que o fenômeno é tratado e o risco de naturalizar ou até romantizar esse tipo de postura.
O garoto incel da série é apresentado como solitário, socialmente frustrado e mergulhado em um ciclo de auto-piedade e ressentimento. Suas falas transbordam um machismo velado, onde a rejeição feminina não é vista como resultado de suas próprias atitudes, mas como uma "injustiça" que o mundo — e principalmente as mulheres — lhe impõe. Em alguns momentos, a série tenta mostrar as origens dessa mentalidade: um ambiente familiar negligente, a pressão social e o isolamento virtual. Contudo, falta aprofundar o debate, evidenciando como essa postura pode evoluir para comportamentos perigosos e autodestrutivos.
A narrativa acaba por flertar com um tom de vitimismo que pode gerar empatia equivocada pelo personagem — como se o espectador fosse levado a entender sua misoginia como uma consequência "inevitável" de sua exclusão social. Nesse ponto, a série perde a oportunidade de desconstruir o discurso incel e problematizar suas raÃzes no machismo estrutural e na cultura da masculinidade tóxica.
Por outro lado, a escolha de inserir essa figura na trama é pertinente e espelha um fenômeno real e crescente, especialmente nas redes sociais e fóruns da internet. A adolescência é, de fato, um perÃodo fértil para o surgimento de inseguranças que, mal elaboradas, podem levar ao radicalismo emocional e ideológico. Mas, ao optar por um tratamento raso, a série deixa escapar a chance de provocar o público a uma reflexão crÃtica sobre o perigo dessa mentalidade.
Conclusão:
A série é boa para quem curte uma desgraça social.